Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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Defenestrando idéias
   
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[23/out/2003] Para não dizer que não falei das flores 

Marcelo, querido amigo e leitor eventual do Defenestrando Idéias, uma vez criticou a virulência com que eu tratava certos temas. Lembro que ele particularmente não gostara do texto de 13/jul/2003, sobre o povo carioca.

É verdade que o tom ácido é muito fácil num mundo complexo como o nosso. Diante da imensa fragmentação de interesses, costumes e idéias é absolutamente impossível que um ato ou opinião não venha a estar sujeito a críticas. Não que eu não acredite na maior parte do que critiquei, mas talvez eu até esteja realmente acometido desta preguiça mental curiosa, que fala mal de tudo e de todos, apenas pelo hábito.   

Então para ninguém dizer que não falei das flores, este Defenestrando, que é o último que escrevo no Brasil possivelmente por um longo tempo, será diferente: será um elogio. Em particular, um elogio às brasilidades.

Há muitos aspectos que me desagradam na cultura moderna e que são muito perceptíveis em nosso hábitos culturais. O misticismo ignorante, que vê traços de sobrenatural em qualquer coisa fora da ordem; uma certa dificuldade para se perceber os limites entre as coisas públicas e aquelas privadas; a produção cultural massificada e seus produtos pasteurizados para agradar grandes parcelas de consumidores; a cultura do barulho, que entope nosso cérebro de ruídos como que para calar as vozes internas.

Porém, enquanto escrevo, aqui na pequenina cidade de São Sebastião do Alto, zona rural do Estado do Rio, escuto o vizinho distante ouvindo Legião Urbana: “Nos deram espelhos, e vimos um mundo doente.” 

Ora, mesmo meus CD’s de cabeceira sendo as Suítes para Violoncelo de Bach, como escaparia às emoções adolescentes rememoradas de quinze anos atrás, com a bela canção de Renato Russo? Então, o ruído que abomino pode se tornar portador de coisas positivas! A cultura massificada da qual fujo pode conter uma beleza ingênua, mas verdadeira.

Pelos próximos dois anos, viverei em Viena, Áustria, e já sei por antecipação que sentirei falta de brasilidades que construíram a minha pessoa.

Me assusta, por exemplo, saber que o céu azul e ensolarado, sob o qual a gente morena e bonita cultiva humores alegres, de repente será substituído pelos longos e cinzas meses invernais.

E não haverá passeio pelas trilhas na floresta da Tijuca e o cheiro úmido da mata atlântica. Muito menos um merecido banho no Véu da Noiva, após uma jornada ao morro Açú, em Petrópolis. Tudo bem, até terei os belos bosques austríacos, mas os europeus que me desculpem: as aves que lá gorjeiam, não gorjeiam como cá.

Muito vinho bom, arroz arbóreo e cogumelo porcini, terei à vontade. Mas como ser feliz sem o arroz agulhinha, a farinha de mandioca e aquele feijão achocolatado, caprichado no louro e no alho? Para não falar na rabada com agrião; o pão de queijo; o caldo de cana; a óbvia feijoada; e a não tão óbvia coxinha de galinha na lanchonete da esquina?

E de repente, me verei alijado da minha língua brasileira, aquela que roça a de Camões e a única que sei de verdade; aquela com que falo comigo mesmo. E carregarei, manco, próteses mambembes de inglês e alemão.

Os ruídos dos vizinhos em Viena, se é que há ruídos por lá, podem até me trazer as Suítes de Bach, mas é muito pouco provável que me tragam "Índios" e as emoções rememoradas da minha adolescência na serra.

Mas felizmente, muito do que melhor brotou aqui nos tristes trópicos poderei levar comigo: Villa Lobos, Machado de Assis, Gilberto Freire, Chico Buarque. É um tanto deprimente, no entanto, saber que muito brasileiro optaria por Paulo Coelho, Marcelo Rossi e Preta Gil: "nos deram espelhos, e vimos um mundo doente".

***

Ainda não sei se terei condições de dar continuidade ao Defenestrando Idéias em Viena. Espero que sim. Espero que este texto não seja um adeus, apenas um até breve.  

(texto de Mario Barbatti)




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