Defenestrando idéias
Mario Barbatti


  Início
  Índice de textos
  Gotas de Sabedoria

  

  Seus comentários
 Avise quando atualizado
  Fórum de discussão

  

  Física molecular
  Você conhece o Mario?
   
Defenestrando idéias
   
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[22/dez/2003] Ciência, tecnologia e ... Rosinha (II)  

1. A fundação renascida

Não faz mais que uns três anos, quem visitasse os escritórios da Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio, no sexto andar da administração estadual na Av. Antônio Carlos, encontraria um ambiente dos mais deprimentes. Era então, a Faperj, um conjunto de salas escuras, com móveis carcomidos; pilhas e pilhas de papéis espalhados por todos os cantos. Parecia um cenário preparado para um filme sobre a burocracia na década de 50.

Mas visite hoje os mesmos escritórios. Estão irreconhecíveis. Foram completamente reformados. Os ambientes agora são claros e informatizados. As pilhas de papel ainda existem, mas agora parecem encerrar alguma ordem. Para o visitante on-line, www.faperj.gov.rj.br conterá as informações necessárias sobre os projetos e editais coordenados pela fundação.

A mudança na Faperj não foi apenas estética. Foi o resultado de uma política de investimento em pesquisa que se iniciou no governo de Marcelo Alencar, e encontrou continuidade nos governos seguintes, pelo menos até agora.

Na gestão de Marcelo Alencar, o orçamento da Faperj cresceu substancialmente, o que foi um alívio para a Fundação, que patinava sob os desmandos demagógicos de Leonel Brizola. Com Garotinho, a Faperj deu um novo salto. Chegou a executar 114 milhões de reais em 2002. Neste nível, a Fundação pôde retomar os investimentos, abrir linhas de fomento, conceder bolsas de pós-graduação.

Foi este cuidado com a área de pesquisa no Rio de Janeiro que gabaritou o PSB, então partido do ex-governador Garotinho, para indicar o ministro de ciência e tecnologia do governo Lula, Roberto Amaral.   

No Rio, pesquisadores e cientistas estavam atônitos, pois viam pela primeira pela primeira vez a Faperj funcionando e se aproximando de sua prima Fapesp, a extremamente eficiente e invejada fundação de amparo à pesquisa de São Paulo.

2. Um golpe parlamentar

Alencar e Garotinho investiram na Faperj, mas ainda estavam longe de cumprir a constituição estadual, que desde 1989 determinava que 2% da receita tributária bruta do estado fosse investida em pesquisa. Este percentual alto, o dobro daquele praticado em São Paulo, tinha como objetivo transformar o Rio de Janeiro num pólo científico e tecnológico, com as óbvias vantagens sócio-econômicas que isto possa significar.

Mas agora, Rosinha Matheus deixa os cientistas e pesquisadores fluminenses novamente atônitos: sem qualquer consulta à comunidade científica e nem mesmo ao Conselho Superior da Faperj, propôs uma emenda constitucional (PEC 20/2003) que reduziria a destinação orçamentária para a Faperj de 2% da receita bruta para 1% da líquida, o que significaria um corte de cerca de 85% nas obrigações do estado. De autoria do deputado governista Edson Albertassi (PSC), a PEC tramitou em tempo recorde, sendo aprovada em dois turnos num golpe de poucas semanas. 

A comunidade científica fluminense, durante o processo parlamentar, negociou com Garotinho, secretário de segurança, para que o corte fosse amenizado. Em sua nova versão, a PEC determinava que a alíquota de investimento em pesquisa seria 2% da receita líquida, descontadas as transferências e vinculações constitucionais. Neste caso, as primeiras estimativas mostravam uma redução de 30% na destinação para a Faperj. 

Na calada da noite, no entanto, a bancada de deputados da base do governo modificou sutilmente o projeto. No texto enviado para a segunda votação constava "2% da receita tributária do exercício, deduzidas as transferências, vinculações constitucionais e legais". O termo "legais" significa que qualquer coisa pode ser descontada da receita antes de se calcular o orçamento da Faperj. Neste momento, não é nem possível estimar o prejuízo, pois, na prática, o novo texto abre uma óbvia brecha para o fim da vinculação constitucional do orçamento para pesquisa no estado. 

3. Com discurso pronto

Um fato curioso que transcorreu ao longo do debate desta questão na mídia, é que os defensores do projeto - como o ex-secretário de ciência e tecnologia de Garotinho (e até poucas semanas, secretário executivo do MCT), Wanderley de Souza, o atual secretário estadual de CT, Fernando Peregrino, e o diretor-presidente da Faperj, Marcos Cavalcanti -, todos ligados diretamente à governadora, mostraram uma clara articulação dos discursos.

Seus principais pontos são:

  • Lei não cumprida deve ser mudada

Todos eles argumentam que a dotação de 2% era exagerada e nunca pôde ser cumprida. Por isso precisava mudar. Não explicaram, no entanto, por quê a nova lei deixa em aberta a dotação, deixando Rosinha e os futuros governadores livres para investirem ou não em pesquisa.

Comentando este ponto, o Prof. Roberto Lent (UFRJ) foi muito feliz ao ironizar:

(...) é perigoso o argumento de que devemos sempre reformar as leis que não são cumpridas, em vez de fazê-las cumprir, simplesmente. E finalmente, beira o risível a concepção lógica do argumento 'realista'. Seguindo-o à risca, concluiremos que seria preciso reformar a Constituição para 'corrigir', por exemplo, o item I do seu artigo 3, que estabelece como um dos objetivos fundamentais da República 'construir uma sociedade livre, justa e solidária'. Já que nunca o fizemos em toda a história da República, melhor seria reformá-lo, talvez refraseando-o: 'Construir uma sociedade razoavelmente livre, minimamente justa, e apenas um pouco solidária'...
(O Globo, 10/12)

  • Garotinho foi o que mais investiu

Todos fizeram questão de lembrar que Garotinho foi o governador que mais investiu na Faperj. Disto ninguém há de discordar. O fato novo é que Garotinho não é mais o governador, cremos. Nem há garantia alguma que os investimentos permanecerão no futuro.

  • Oposição sistemática

Todos reclamaram que quem discordava do projeto eram apenas os que faziam uma sistemática e injusta oposição contra a governadora. Vale destacar a pérola de argumentação do diretor-presidente da Faperj:

"Na polêmica que se estabeleceu em torno da aprovação da PEC, podemos distinguir dois grupos de opiniões bem distintas: em um estão aqueles interessados em atacar toda e qualquer iniciativa do governadora Rosinha Garotinho; no outro grupo se encontram os pesquisadores efetivamente preocupados com o futuro das ações empreendidas na área de C&T em nosso estado." (JC/email, 12/dez/2003)

Ou seja, por algum motivo muito complicado para se compreender, apenas o pequeno corpo de pesquisadores diretamente ligados à governadora está preocupado com C&T no estado. Todos os outros, e aí se incluem a SBPC e o próprio Conselho Superior da Faperj, querem apenas atacar a governadora.

  • Fapesp investe menos

Outro ponto em comum, lembrar que a Fapesp recebe apenas 1% da receita paulista. Mas se a questão é copiar a receita de São Paulo, deveria se defender também o pagamento da dívida do estado para com a Faperj (ver item 4, abaixo), como foi feito do outro lado da ponte-aérea, há quatro décadas. Nenhum dos defensores tocou no assunto.

Fernando Peregrino, por sua vez, ainda se utilizou de um sofisma para forçar as comparações, quando escreveu que:

"A quantia aprovada pela Alerj colocou o Estado do RJ na mesma posição da Fapesp de SP, tida como paradigma, ao aproximar-se do índice de 14 mil, por ano, por pesquisador, em investimentos vindos do Tesouro do estado." (O Globo, 15/dez/2003)

O secretário apenas não mencionou que como resultado da política de descentralizações (ver item 4, abaixo), a receita da Faperj por pesquisador não passa de 3,5 mil reais por ano.

4. Os objetivos dos pequenos

Podemos nos perguntar quais são os objetivos de Rosinha Matheus e seu grupo político. Na prática, a emenda constitucional não implica em redução imediata do orçamento da Faperj. Portanto, redução de "despesas" não parece ser um objetivo central. 

Por outro lado, em diversas ocasiões, a governadora já se manifestou contrariamente ao peso das vinculações constitucionais sobre o orçamento. As vinculações constitucionais definem as políticas de Estado, e estabelecem níveis obrigatórios de investimento em áreas como saúde, educação, meio ambiente, ciência e tecnologia, independentemente das políticas de governo. 

A destinação para saúde, por exemplo, foi desviada para políticas sociais. As destinações para o Fundo de Conservação Ambiental foram reduzidas em 75%. No caso da Faperj, a PEC 20/2003 não foi a primeira ação para desvinculação, pois de fato quase metade do orçamento da Faperj já não é utilizado para sua missão de amparo à pesquisa, mas é repassado para atividades e instituições não diretamente ligadas a este fim, como as escolas técnicas estaduais ou a secretaria de administração. De fato, dos 75 milhões de reais executados pela Faperj em 2003, o investimento direto em pesquisa (incluídas as bolsas) não passou de 28 milhões de reais. 

Parece claro, portanto, que o governo do estado tem trabalhado com afinco para minimizar o impacto das vinculações e ter liberdade para gastar como for de sua preferência. 

O segundo objetivo da PEC, este realmente ligado à Faperj, parece ser o controle do passivo do estado para com a fundação, que vem crescendo rapidamente ao longo dos anos. A cada ano em que a destinação orçamentária não é cumprida, acumula-se uma dívida que hoje está em torno de 900 milhões de reais, segundo o Tribunal de Contas do Estado. Com a aprovação da PEC, a destinação orçamentária constitucional torna-se próxima ao orçamento real, estancando o crescimento da dívida.

Vale recordar que a Fapesp passou por um processo semelhante. Parte de seu sucesso financeiro veio do reconhecimento da dívida do estado de São Paulo para com a Fundação com a criação de um fundo patrimonial, pelo governador Carvalho Pinto em 1962. Este fundo deu liberdade para a Fapesp gerar novas receitas independentemente das destinações orçamentárias.

5. Como será o amanhã?

Wanderley de Souza defendeu o projeto argumentando que:

"Há que se esclarecer que o novo percentual é referente ao piso, não ao teto, que é o limite superior. Sendo ele 1 ou 2%, o orçamento da Faperj pode ser acrescido de acordo com o equilíbrio orçamentário-financeiro do estado." (JC-email, 16/dez/2003)

Não fosse pela sutileza do texto aprovado com o termos "legais", esta argumentação poderia fazer sentido. Mas mesmo que Rosinha Matheus venha a manter os atuais níveis orçamentários, por que outro governador, no futuro, não poderia se utilizar da brecha constitucional, para promover reduções?

Neste futuro imaginário, mas não pouco provável, qual seria então a defesa do Prof. Wanderley de Souza, cientista gabaritado e sem dúvida empenhado no que ele acredita ser o melhor para o desenvolvimento científico do estado? Diria que não tinha idéia de que isto poderia acontecer?

Mesmo que não saibamos o que será da pesquisa no estado do Rio nos próximos anos, é certo que em apenas um ano Rosinha Matheus conseguiu instituir o ensino religioso nas escolas públicas, reduzir drasticamente o repasse para o Fundo de Conservação Ambiental e lançar as bases para desmontar a Faperj. É assustador imaginar as trevas que ela ainda pode trazer nos três anos que lhe restam no governo.

Pró memória, votaram contra a redução da destinação orçamentária:

Alessandro Molon, André Corrêa, Carlos Minc, Cida Diogo, Cidinha Campos, Comte Bittencourt, Delio Leal, Flávio Bolsonaro, Georgette Vidor, Gilberto Palmares, Gilberto Silva, Glauco Lopes, Inês Pandeló, Jurema Batista, Luiz Paulo, Otávio Leite, Paulo Ramos.

Votaram a favor: 

Acárisi Ribeiro, Albano Reis, Alberto Brizola, Antônio Pedregal, Aparecida Gama, Aparecida Panisset, Armando José, Caetano Amado, Coronel Jairo, Coronel Rodrigues, Dica, Domingos Brazão, Edmilson Valentim, Edna Rodrigues, Edson Albertassi, Eliane Ribeiro, Ely Patricio, Fábio Silva, Geraldo Moreira, Graça Matos, Graça Pereira, Jodenir Soares, Jorge Picciani, José Nader, José Távora, Leandro Sampaio, Léo Vivas, Marco Figueiredo, Marcos Abrahão, Nelson do Posto, Noel de Carvalho, Núbia Cozzolino, Paulo Melo, Pedro Fernandes, Ricardo Abrão, Roberto Dinamite, Rogério do Salão, Samuel Malafaia, Sérgio Soares, Uzias Mocotó, Waldeth Braziel, Washington Reis.

(texto de Mario Barbatti)


Leia também no Defenestrando Idéias:
Sobre os físicos e sua  incompetência corporativa
Algo errado na base da pirâmide
Ciência, Tecnologia e... Rosinha (I)
Ciência por quê?


gun.gif (5899 bytes)

Gotas de Sabedoria