Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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Defenestrando idéias
   
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[07/fev/2004 Sobre o gene egoísta (parte 1)   

1. Uma natureza brilhante

Richard Dawkins, professor da Universidade de Oxford, é um intelectual brilhante. A sua força vem de um desejo de criar idéias, pondo de cabeça para baixo o senso comum; de tomar velhos conceitos e estende-los até o limite onde se subvertem, se revitalizam e voltam a surpreender. Ele se encanta com isto. Se encanta com a idéia de que um organismo é uma federação de vírus; ou de que o corpo é um autômato construído pelo genes para garantir sua própria sobrevivência; que a ciência, longe de tirar a beleza romântica do mundo, a reconstrói em níveis cada vez maiores de complexidade.

E o repertório dawkiniano de novas idéias parece nunca se esgotar, emprestadas ou de sua própria autoria, ele as divulga em fluentes especulações, que mesmo quando um tanto toscas não cessam de surpreender: 

E se o fenótipo determinado pelo genes não puder ser limitado aos efeitos observáveis no organismo, e tivermos que incluir as transformações que os genes provocam "externamente", como os ninhos dos pássaros, por exemplo?

E se os fragmentos culturais, como melodias, conceitos e modas, transmitidos entre indivíduos por repetição, estiverem sujeitos às mesmas regras do neodarwinismo? 

E se um vírus nada mais é que um fragmento de DNA que, não se contentando em se replicar pelos meios convencionais (transmitindo-se para as próximas gerações via óvulos ou espermatozóides), cria meios de se propagar pelo ar ou pela saliva?

"O Gene Egoísta", seu primeiro livro, publicado em 1976, é uma obra impressionante, na qual a gente se maravilha a cada momento com a descrição dos fantásticos seres que habitam este planeta, e então volta a se maravilhar ao compreender os porquês destes seres dentro de um contexto genético-evolucionário. 

Formigas que cultivam fungos, outras que criam e "ordenham" moscas. Enxame de insetos geneticamente idênticos, como se fosse um único organismo com seu corpo fragmentado em vários indivíduos. "Colméias" de roedores onde todos os membros são irmãos estéreis trabalhando para garantir a continuidade da reprodução de sua mãe. Casais de peixes hermafroditas nos quais os indivíduo se alternam no papel de macho ou fêmea. Parasitas que estimulam seus hospedeiros a viverem mais. Vespas que mantém suas presas vivas e paralisadas para servirem de alimento fresco para suas larvas.

Plantas que em retaliação por não terem sido polinizadas, deixam suas flores morrerem, matando também os ovos dos insetos que espertamente não cumpriram sua função. Formigas-rainhas que induzem quimicamente as trabalhadoras de uma espécie diferente a matarem a sua própria mãe e as adotarem como nova rainha. Os escritores de ficção científica deveriam se envergonhar com a banalidade de seus ETs diante da surpreendente complexidade biológica de nosso planeta.  

Mas por mais deliciosas que sejam as descrições destes exemplos específicos, a verdadeira força de "O Gene Egoísta" se faz sentir quando Dawkins os explica no contexto mais geral dos fenômenos do altruísmo e da agressividade, da colaboração e do parasitismo, da diferenciação sexual, da afinidade entre familiares sempre a partir da perspectiva evolucionária dos genes.

2. Os replicadores: átomos da evolução

Para Dawkins, o conceito central em toda discussão evolucionária é o de replicador (replicator). Um replicador é qualquer coisa, não necessariamente de natureza biológica, que tenha capacidade de se fazer cópias de si mesmo. 

O início da vida na Terra teria se dado possivelmente a partir de proteínas auto-replicadoras. Elas se reproduziam a partir dos aminoácidos presentes no meio primordial, seja lá qual fora, até que estes recursos naturais se esgotaram. Houvessem jornais há 5 bilhões de anos, eles noticiariam a primeira crise ecológica da história.

Mas o fato básico que permitira a continuidade da evolução de nossa biosfera, é que nenhum processo de replicação é perfeito. Um certo grau de fidelidade entre gerações é esperado, mas as mutações são estatisticamente obrigatórias.

O DNA é o principal, talvez único, replicador em nosso planeta. Cada fita da hélice pode dar origem a uma nova e idêntica molécula, utilizando os recursos do ambiente.

Eventualmente se um replicador-mutante obtivesse a capacidade de "quebrar" seus vizinhos, adquiriria automaticamente uma fonte inesgotável de recursos para sua auto-reprodução. As gerações deste tipo de replicador, com certeza poderiam se tornar numericamente dominante, pelo menos até que uma mutação levasse a algum outro replicador a resistir aos seus ataques, talvez por meio de uma capa de proteína. Os proto-jornais noticiariam, neste momento, o início de uma "corrida armamentista" que viria a durar até hoje.

O replicadores são hoje chamados de genes. São feitos de DNA, atuam em conjunto formando cromossomos e suas máquinas de guerra, para ataque e para defesa, são os corpos que eles laboriosamente constroem, coordenando a síntese de proteína dos organismos.

Em resumo, Dawkins mostra que a biologia está de cabeça para baixo. Os cientistas quando começaram a estudar a vida, começaram pelo seu aspecto mais evidente, os organismos. Eventualmente descobriram os genes, e atribuíram a eles o papel de ajudar o corpo no processo de reprodução. Falso: os genes criam o corpo para ajudá-los no processo de reprodução.

As teorias do gene egoísta e do fenótipo estendido - segundo a qual a ação dos genes não se limita ao organismo, mas se estende para o mundo externo e mesmo outros organismos - dão ao darwinismo uma base genética, desconstruindo tanto a teoria da seleção de grupos (os indivíduos querem o bem de sua espécie) quanto a teoria da seleção de indivíduos (sobrevivência do mais apto). No primeiro caso, os grupos (por exemplo, um bando de pássaros ou a espécie humana) não formam uma unidade coerente e uniforme o bastante para poder se atribuir propriedades evolutivas, a não ser em casos específicos de grupos de indivíduos com grande afinidade genética. 

No segundo caso, mesmo os indivíduos sendo mais coerentes e uniformes que os grupos, Dawkins argumenta que a seleção ocorre realmente entre os genes, e que a aparente seleção entre indivíduos é apenas a conseqüência da seleção genética.

A insistência de Dawkins sobre a prioridade da seleção genética sobre a de grupos e a de espécies levou a longas polêmicas com outro grande biólogo Stephen Jay Gould. O sabor da disputa pessoal aparece, por exemplo, quando em uma nota à segunda edição do Gene Egoísta, Dawkins comenta sarcasticamente: "[Gould] após um preâmbulo sobre reducionismo e hierarquia (os quais como usual, eu não acho nem errado nem interessante) ...".

Para Dawkins, os genes foram os únicos replicadores do planeta por bilhões de anos. Hoje seríamos, no entanto, espectadores e palco para o nascimento de uma novíssima classe de replicadores, os memes. Os memes seriam unidade de repetição cultural. Frases, idéias, melodias, citações. Padrões estruturados de pensamento que se replicam por imitação, sujeitos a mutações e a mecanismos darwinianos de evolução. 

Apesar da idéia ser fascinante, ela realmente soa bastante forçada. Sente-se falta de uma definição mais exata do que seriam estes padrões de repetição. Padrões de atividade cerebral? Como conciliar o meme de uma idéia pensada com o da mesma idéia escrita, já que seus padrões materiais são completamente distintos? 

A segunda edição de O Gene Egoísta já fez os seus quinze anos. Desde lá a hipótese dos memes pode ter se tornado mais rigorosa, ou apenas ter sucumbido. Não sei. Fico devendo um texto sobre o assunto para o futuro. 

Por enquanto, vamos nos aprofundar um pouco sobre os conceitos oriundos da moderna Teoria dos Jogos, que permitem construir modelos matemáticos para os vários aspectos da teoria do Gene Egoísta. Para isto, convido o leitor para a continuação deste texto, Sobre o Gene Egoísta (parte 2).

(texto de Mario Barbatti)

 


Leia também no Defenestrando Idéias:
Sobre o Gene Egoísta (parte 2)
 
Evolução: dos criacionistas às amebas

Quem sonha com ovelhas elétricas?

Para saber (muito) mais:
http://www.world-of-dawkins.com/
(site não oficial recomendado pelo próprio Dawkins)
Desvendando o arco-íris, R. Dawkins, Companhia das Letras.
O Gene Egoísta, R. Dawkins, Itatiaia Editora.
O Macaco Nu, Desmond Morris, Ed. Europa-América.
O que é a vida?
, E. Schroedinger, Ed. UNESP.
O acaso e a necessidade, J. Monod, Ed. Europa-América.


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