Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[22/mar/2004 Os livros de Lula   

Lula por diversas vezes já deixou claro que tem uma certa aversão a intelectuais, mesmo tendo ao longo de uma década de candidaturas fracassadas contado com o apoio de boa parte da intelectualidade brasileira. A demissão do ministro Cristóvam Buarque, no início de 2004, foi motivada pelo grande defeito dele ser um intelectual. A discussão sobre a autonomia do Banco Central foi reduzida a "debates acadêmicos" e, como é pouco provável que o presidente estivesse se referindo a alguma escola de samba, novamente estava desqualificando o espaço dos intelectuais. No governo, talvez com a exceção de Carlos Lessa e Tarso Genro, o papel dos intelectuais vem sendo reduzido às elegantes intervenções de Marilena Chauí na Folha de São Paulo e suas citações de Espinosa.

O presidente Lula, que governa por mérito próprio 170 milhões de cidadãos, aparentemente ainda vive assombrado por um complexo de inferioridade sem sentido. Só isto explica a tacanhez de suas palavras em uma solenidade em Fortaleza :

"Talvez tenha gente que diz: Vamos deixar um torneiro mecânico dar mais certo do que nós que estudamos tanto, gente? Não pode, isso não pode. (...) Não é o livro que ensina a arte de governar." Presidente Lula, discurso citado em O Globo, 18/mar/2004.

Ainda candidato, em 2002 Lula comentou em uma entrevista que não tinha o costume de ler livros. Suas referências eram os jornais e revistas. Ou seja, na escolha entre a informação estruturada, densa, profissionalmente qualificada que pode-se encontrar em um livro, ele prefere, por preguiça, falta de tempo ou de costume, sabe-se lá!, conformar-se à efemeridade dos periódicos e à generalizada mediocridade das informações jornalísticas.

Me lembro vagamente de uma pesquisa estatística que mostrava que o Brasil possuía menos livrarias que a cidade de Buenos Aires. Portanto a aversão ao livro não é um problema exclusivo do presidente, é tradição cultural que o intelectual Sérgio Buarque de Holanda  (aliás um dos fundadores do PT) atribuía às restrições de acesso à cultura erudita impostas pela coroa portuguesa.

Possivelmente não é um livro que ensina ninguém a governar. Mas esta é uma afirmação trivial. Não se aprende a ser dentista em um livro. Nem a tocar piano em um livro. Eu não aprendi o meu ofício de físico pesquisando nos livros.

A experiência, que alimenta a intuição; a repetição, que treina as capacidades motoras; a concentração, que permite analisar os problemas e afastar-se dos erros são algumas das peças fundamentais para o aprendizado das profissões, inclusive a da "arte de governar". 

Mas isto não quer dizer que livro bom é livro queimado. É lá nos livros, e - numa extensão natural - nos periódicos técnicos profissionais é que estão as informações qualificadas. Parodiando Brecht, o problema de quem não gosta de livros é que é governado por quem gosta. E antes que alguém aponte uma contradição na afirmação, adianto que mesmo Lula nem percebe que ele é parte de uma cadeia de transmissão de conhecimentos, que teve sua origem na teoria expressa em algum livro, em algum momento.

O ministro Palocci, por exemplo, político profissional, mas que algum dia já esteve nos bancos universitários de uma escola de medicina, quando se senta nas reuniões ministeriais, eu o imagino assistindo a uma apresentação de PowerPoint, bem ilustrada e recheada de dados, feita por um dos seus assessores técnicos. Claro que Palocci já aprendeu a destrinchar o economês, compreender os gráficos, acompanhar as explicações. Mas aquele jovem economista no seu papel de assessor, com pós-graduação na PUC, na FGV ou quem sabe em alguma escola americana, está apresentado dados que foram gerados a partir de uma teoria econômica, que ele conhece bem e Palocci possivelmente não. 

Ora, ora... como o intelectual Gaston Bachelard ensinava, todo dado é construído. Não no sentido de inventado, mas no sentido de que a escolha do que é relevante e a metodologia de coleta e tratamento dos dados sempre depende de um arcabouço conceitual prévio. No caso específico do exemplo do ministro Palocci, os dados da suposta apresentação dependem de uma teoria econômica.

Qual a capacidade de Palocci para criticar as previsões que lhe mostram? Muito possivelmente ele as compreende, mas não tem competência técnica para ir aos seus fundamentos e encontrar potenciais falhas. Neste momento ele se torna refém do apresentador.

Comentei anteriormente aqui no Defenestrando Idéias (06/mai/2003) que Palocci fez uma apresentação na qual ele apresentou algumas previsões a respeito da relação entre dívida pública e superávit primário que eram completamente irrealistas. Era apenas, literalmente, um estudo acadêmico que não levava em consideração a desvalorização da moeda. Até hoje me pergunto se Palocci agira de má-fé ao apresentar aquelas simulações no senado ou fora um engano honesto, característico da incompetência técnica.

Nem de longe estou defendendo que o Ministério da Fazenda deva ser chefiado exclusivamente por economistas. Afinal, economia é coisa muito séria para ficar nas mãos de economistas. Mas seria fundamental que o presidente da república e o ministro da pasta fossem competentes para montar suas equipes com assessores tecnicamente competentes, porém advindo de escolas de pensamento diversificadas. Isto pelo menos garantiria que o político na chefia teria ao seu alcance uma fauna ampla de opiniões e não apenas o emburrecedor consenso advindo de uma única teoria econômica, que naturalmente cria a ilusão de terreno sólido, quando só o que se tem é lama.

O governo Lula está repleto de pessoas repletas de boas intenções, a começar pelo chefe. Mas é impressionante a rapidez com que se tornou refém acrítico do neoliberalismo. Como monta a cada dia, para si e para o país, uma armadilha cada vez mais difícil de escapar. 

Seja colhendo bons frutos ou condenado ao inferno das boas intenções, que pelo menos o presidente Lula assuma que hoje é ele o responsável pelos passos da Nação e não os mesquinhos e invejosos que "estudaram tanto".

Já que ele não gosta dos livros e de intelectuais, seria bom que ao menos refletisse sobre a brilhante análise política de Cartola:

"Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés
" 

(texto de Mario Barbatti)


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