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[04/mai/2004]
As
palavras e as regras (I)
1.
Contando a história da língua
A idéias é
simples: às vezes a linguagem trabalha usando palavras memorizadas
outras
por regras que geram palavras. Esta é a hipótese básica que perpassa
Words and Rules, livro de Steven Pinker, e que tenta conciliar as duas grandes
escolas de teorias lingüísticas, a gramática generativa e o
conectivismo. Pinker, que é Professor do departamento de
psicologia da Universidade de Harvard, usa o fenômeno dos verbos e
plurais regulares e irregulares para mostrar a natureza dupla da
linguagem, sua dependência das palavras e das regras.
Pinker, antes de se embrenhar pela
discussão central, gasta alguns capítulos explicando ao leitor
não especialista a origem histórica e fonética da língua
inglesa e os fundamentos da lingüística. E aí, aquelas
coisinhas estranhas a respeito da linguagem, como o porquê de
existir
verbos irregulares, vão se clareando.
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Por exemplo, que
brasileiro não se intriga com o fato da língua inglesa possuir
apenas o verbo be para ser e estar? Pinker explica que no antigo
inglês, falado entre os anos de 450 e 1100 d.c., havia três
verbos para designar existência: beon (estado permanente,
ou ser), wesan e esan (estado temporário, ou
estar). Ao longo da história, restou apenas o verbo be,
derivado de beon. Mas os outros dois deixaram sua marca:
esan forneceu am, is e are, e wesan, was
e were. |

Steven
Pinker |
Aprendemos que
no antigo inglês, falava-se e ouvia-se "Christ
Mass" (Missa de Cristo, com i longo, como /ái/) e com o
tempo as novas gerações falavam e ouviam "Christmas"
(Natal, com i curto, como /i/). Em algum momento perdido na
história da língua inglesa, havia possivelmente gente falando de
uma forma e outros ouvindo da segunda.
E para nós,
latinos, com
conjugações verbais para todos os gostos, descobrimos fascinados
que o inglês já fora menos monótono. Até o inglês médio
(1450 d.c.), a conjugação típica de sing (cantar) seria:
I sang
Thou sunge
He, she sange
We sungon
You sungon
They sungon |
Eu canto
Tu cantas
Ele, ela canta
Nós cantamos
Vocês cantam
Eles cantam |
Words and Rules é
uma obra deliciosa e sente-se a cada momento falta de uma
equivalente tratando da língua portuguesa. Mas, infelizmente, dada suas
características, é intraduzível. Por
isto vou tentar, neste texto, na medida do possível, utilizar
exemplos em português, equivalentes aos usados por Pinker.
2.
Regras ou Palavras?
Aprendemos cedo na
escola que os particípios dos verbos amar, vender e partir são
amado, vendido
e partido. A partir destes
paradigmas, sabemos o particípio de qualquer verbo.
Temos:
Casar, comer, fugir:
casado, comido,
partido.
Gastar, fazer, abrir: gastado, fazido,
abrido.
Ôpa! Problemas com
"fazido"? A professora rápido ensinava que alguns verbos
ganham um particípio irregular, ou seja, que não obedece às
mesmas regras do paradigma. Assim, gasto,
feito, aberto.
Mas e estes "irregulares", obedecem a alguma regra?
Afinal, eles aparecem em famílias como abrir, cobrir, descobrir: aberto,
coberto, descoberto. Talvez
sejam dificuldades fonéticas inerentes à fala portuguesa que nos impeçam
de falar "cobrido" ou
"vido" e os transforme em
"coberto" e "vindo".
Ou serão os irregulares idiossincráticos e aleatórios, com o
nascimento enterrado na história lusa?
O lingüista Noam
Chomsky, pai da gramática generativa, responderia favoravelmente à primeira hipótese. Mesmo
que pouco aparentes e extremamente abstratas, haveriam regras para
derivação dos particípios irregulares. Chomsky, Halle e Mohanan
desenvolveram para a língua inglesa um sistema de apenas três
regras, capaz de prever a forma passada de 165 verbos, tanto
regulares, como work - worked, quanto irregulares,
como drink - drank. Para esta escola lingüística,
os nossos cérebros não memorizariam palavras como "amar",
"amei", "amamos", ou "amado", mas as construiriam a
partir de certas regras partindo de uma forma oculta e abstrata. Estas formas
ocultas não seriam
nunca faladas e eventualmente poderiam ser bastante diferentes do
resultados sonoro.
No inglês, por
exemplo, a forma oculta para buy (comprar) seria "beech"
(bír).
Segundo as três regras da teoria de Chomsky, Halle e Mohanan, na
formação do passado, beech ganha um -t,
para isto sofre uma flexão da vogal de e longo para o
longo, formando boocht (búrt). Em seguida, o agrupamento cht
dispara uma função de encurtamento, que resulta em bócht
(bórt).
Finalmente, o ch desaparece para dar o resultado final bought
(bót).
Esta teoria impressiona
pela imensa síntese que faz ao determinar que poucas regras
fonéticas são capazes de gerar flexões regulares e irregulares.
Mas ao mesmo tempo, a extrema abstração destas regras deixa
no ar aquela perguntinha: será que a coisa realmente é assim em
nossos cérebros?
Faça o teste!
Sabendo que "lambrir" é o ato de colocar lambris,
complete para si mesmo a seguinte questão:
Teste 1
"Estou
fazendo uma obra em casa. Comprei azulejos e tenho azulejado
todo o banheiro. Também comprei lambris e tenho ..............
todo o teto."
Você respondeu lambrido
ou lamberto? Repita o teste com os
amigos. Vai ser um verdadeiro sucesso numa mesa de bar.
Bom, se a sua resposta
é lamberto, você está dando subsídios para a teoria de
Chomsky. Pois neste caso, ele argumentaria que seu cérebro
utilizou as mesmas regras que utiliza em abrir e cobrir (aberto
e coberto). Mas se a resposta é
lambrido, como muito possivelmente
foi, isto deixa Chomsky com um problema. Por que a regra funciona
em alguns casos e não em outros, já que a estrutura fonética
das palavras é a mesma (todas terminam em -brir)?
Talvez, portanto, este
papo de regras seja balela. Nossos cérebros não estariam
construindo as palavras se utilizando de regras abstratas, mas
poderiam estar fazendo associações por semelhança!
Abrir é parecido com
cobrir, por isto aberto e coberto.
Lambrir, palavra estranha, não foi imediatamente associada, por
isto, lambrido. Chomsky continuaria se defendendo dizendo que a
estrutura fonética não era exatamente idêntica, afinal, lambrir
tem um som nasal antes do b, que abrir e cobrir não têm.
Mas o pessoal do
conectivismo continuaria argumentando que o cérebro não usa
regras, mas sim memoriza palavras e encontra novas flexões
verbais, de gênero, de número, etc., por semelhança com as
pré-memorizadas. Isto explicaria porque crianças às vezes falam
"fazido" ao invés de "feito". Elas ainda
não teriam memorizado a forma correta.
Uma forma de testar a
hipótese do conectivismo é empregar simulações
computacionais com redes neurais. Nestas simulações, as
unidades de entrada da rede são os sons do radical do verbo numa
forma abstrata. Por exemplo, seriam entradas: 1)
nasal-consoante-vogal, 2) consoante-vogal, 3) vogal - vogal, etc.
As saídas seriam os sons da forma flexionada, com a mesma
classificação que a anterior.

Exemplo
hipotético de uma rede neural para
simulação de flexões verbais.
Cada caminho na rede
estabelece uma regra de flexão. Na figura acima, a primeira regra
seria: "Se a raiz do verbo é do tipo nasal - consoante -
nasal, então a forma flexionada é nasal - consoante
-nasal." Na rede da figura, temos três entradas e três saídas,
portanto apenas 3 x 3 = 9 regras. No trabalho pioneiro de David
Rumelhart e James McClelland publicado em 1986, eles simularam a
flexão do passado em língua inglesa usando uma rede de 460 x 460 =
211600 regras.
A partir de uma lista
básica de verbos e suas flexões, a rede é treinada e se
estabelece uma certa probabilidade de ocorrência para cada regra.
Por exemplo, se na lista de verbos para treinamento nenhum verbo
segue a regra "vogal - vogal resulta em vogal - vogal",
isto implica que esta regra terá probabilidade zero de ocorrência. A
rede de Rumelhart e McClelland fora treinada com 420 verbos. Ao
utilizar a rede para produzir as formas passadas de novos verbos
regulares e irregulares, que não estavam na lista de treinamento,
a rede se saiu bastante bem, apesar de não ser perfeita.
Mas perfeição poderia
significar apenas que mais unidades devem ser adicionadas à rede
ou a própria arquitetura da rede deve mudar para otimizar certas
redundâncias.
Seria a teoria do
conectivismo mais adequada que a gramática generativa? O problema
é que nem todos os esforços de reformulação das redes neurais conseguiram eliminar os seus
problemas, como o de dar conta de verbos que soam parecidos, mas
flexionam diferentes, como ring - rang e wring
- wrung ou break - broke e brake - braked. Em
poucos anos, o conectivismo e suas simulações com redes neurais
decaiu de uma maravilha que, segundo o Times Literary Supplement, faria a lingüística tradicional se tornar
algo como a alquimia,
para má-ciência que deveria ser guardada no mesmo baú que os
Raios N ou a fusão a frio, segundo o matemático A. K. Dewdney.
Isto nos deixa o
seguinte cenário: uma teoria prevê que os processos de flexão
na linguagem são determinados por regras abstratas, a outra
teoria prevê que estes processos se dão por associação de
palavras semelhantes pré-memorizadas. Ambas explicam parte do
fenômeno lingüístico e ambas possuem problemas difíceis de
resolver. Qual delas seria a "mais correta"? A
resposta de Pinker é simples: ambas, dependendo do caso.
Mas esta história fica
para o próximo Defenestrando Idéias.
(texto de Mario Barbatti)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
As
palavras e as regras (II)
As
palavras e as regras (III)
Que
dirá de uma sociobiologia?
Frijof
Capra: Não li e não gostei
Oito
anos desde Sokal
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