defenestrando idéias
Mario Barbatti


  Início
  Índice de textos
  Gotas de Sabedoria

  

  Seus comentários
 Avise quando atualizado

  

  Física molecular
  Você conhece o Mario?
   
Defenestrando idéias
   
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[31/mai/2004] Uma sombra sobre o Rio

"Marx e Freud com certeza ganhariam um concurso público para o ensino religioso; mas, com pleno direito, as instituições religiosas negariam o mandato a quem tivesse o objetivo de destruir ou alterar uma determinada religião."
 D. Filippo Santoro, Bispo auxiliar do Rio de Janeiro, em O Globo, 03/nov/2000, se gabando que as autoridades religiosas não deixariam dois dos mais importantes intelectuais da modernidade ensinarem no Estado do Rio. 

No resumo da obra, o governo do Estado do Rio de Janeiro instituiu o ensino religioso facultativo e confessional nas escolas públicas. A razão oficial é o desenvolvimento de valores humanos. Extra oficialmente, trata-se de engrossar e expandir a maciça propaganda evangélica, e seu agregado valor político, para as salas-de-aula, às custas de valores republicanos básicos.

Com o ensino religioso, volta-se também a se ensinar a interpretação literal da origem da vida segundo o livro do Gênesis, o criacionismo. Enquanto isto, na aula de biologia, a criança aprenderá os rudimentos da teoria da evolução. O secretário estadual de Educação, Claudio Mendonça, não vê problema algum nesta contradição. Em entrevista à revista Época, ele pondera:

''Será que alguma dessas teorias é verdadeira? Quando se fala em origem da vida, é importante questionar tudo.''

Suzana Viana, da equipe de educação religiosa da secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, em entrevista à Folha de São Paulo (13/mai/2004), segue com o mesmo argumento: 

"Não vamos contrapor as teses, mas o equivocado seria oferecer só uma informação. O evolucionismo é tão questionado quanto o criacionismo"

Não preciso trocar nada em miúdos, pois eles já se fizeram bastante claros ao colocarem evolução e criacionismo no mesmo saco das verdades possíveis. Ciência como uma atividade humana, cultural por definição, não pode querer um status superior para a verdade das suas afirmações.

No parco debate que se seguiu à medida de adoção do ensino do criacionismo nas escolas estaduais fluminenses, vi opiniões como estas serem repetidas mesmo por gente com formação cientifica. Noé Pereira de Campos, especialista em Neuropsicologia da do Hospital das Clínicas do Paraná, no JC-Email de 20 de Maio de 2004 afirma:

"E se a evolução é, como se ensina, a verdade, por que ter medo de expor outra 'teoria'? Por que não estimular a abertura da mente da própria ciência, que, ao longo dos anos, tem-se flagrado com tantos equívocos? Eu não tenho medo da verdade, esteja ela na ciência ou esteja na Bíblia. Por isso, não preciso protestar nem contra nem a favor. A verdade é uma só."

E na mesma linha, Fábio Vanini, graduado em Ciências Biológicas pela Unicamp, na mesma edição do JC, defende que

"Não há maior fundamentalista que um cientista apaixonado. Ele é capaz, até mesmo, de sugerir que se combata 'energicamente' as posições contrárias, em prol da liberdade. Seria esse combate uma ameaça terrorista?"

Em termos políticos, nada mais correto. A defesa da pluralidade de opiniões na escola é nobre o bastante para merecer estes elogios eloqüentes.

O problema é que a roupa bonita está apenas escondendo a carne suja. Duvido que os cientistas em sua maioria sejam contrários à diversidade de opiniões nas salas de aula. Muito poucos seriam contrários ao retorno da filosofia aos bancos escolares, e provavelmente uma parte considerável apoiaria a criação de uma disciplina onde as varias visões religiosas fossem mostradas, não digo nem de forma antropológica, mas numa concepção humanista na qual os jovens fossem ecumenicamente estimulados a desenvolver um sentimento de tolerância e respeito para com as diferenças. 

Só que, ironicamente, este pluralismo em sala-de-aula nunca seria aceito por boa parte das lideranças evangélicas, que lucram pregando a intolerância e o sectarismo, e agora ainda contarão com dinheiro público pra fazer isto. Eis o porquê do ensino religioso no Rio ser confessional e não ecumênico.

No contexto do conservadorismo irresponsável da ortodoxia católica e da pantagruélica ambição política e financeira dos neopentencostais, o ensino religioso confessional nas escolas é um instrumento extremamente perigoso, diante do qual ensinar-se ou não criacionismo é apenas um detalhe menor. Mas é um detalhe interessante por revelar a importância que se pode dar a algo que é pura falácia. Não existe este tal debate entre criacionismo e evolução. Se houve algo do gênero, são águas que há muito passaram pelo século XIX.

Sugiro aos pluralistas de plantão, que antes de se arvorarem na defesa do idealizado debate, gastem algum tempo lendo os textos dos criacionistas, e reflitam se nossas crianças realmente merecem ser suas vítimas. Visitem sites criacionistas como http://www.christiananswers.net/portuguese/ ou http://www.criacionismo.com/. Vejam o amontoado de besteiras e falsidades que eles escrevem, e julguem por si só se seus argumentos devem realmente freqüentar uma sala-de-aula. Aqui no Defenestrando Idéias, já até fiz este dever-de-casa, e analiso alguns textos criacionistas amplamente divulgados na rede (Evolução: dos criacionistas às amebas).

Não estamos falando de um debate intelectual, onde argumentos hierarquicamente equivalentes disputam seu espaço como verdade estabelecida. Nem estamos falando de cientistas arrogantes, positivistas querendo impor a todo custo sua visão de mundo em detrimento de outras. Ao falarmos de criacionismo, estamos falando de gente que não compreende - ou finge não compreender - conceitos simples, às vezes triviais, de termodinâmica, biologia, antropologia, geologia, paleontologia, matemática, epistemologia e história.

Infelizmente, defender o criacionismo na escola é algo como querer que nossos filhos estudem ufologia ou a negação do holocausto judeu como visões alternativas de mundo. É realmente isto que queremos?

Bom, não importa o que queremos. O governo do Estado do Rio já decidiu por nós.

(texto de Mario Barbatti)

 


Leia também no defenestrando Idéias:
Sobre o Gene Egoísta (parte 1) 
Ciência, tecnologia e ... Rosinha (II)
A opinião intocável 

Evolução: dos criacionistas às amebas
Ciência por quê?


gun.gif (5899 bytes)

Gotas de Sabedoria