[11/jul/2004]
Um adolescente em Nottingham
Foi
como um adolescente orgulhoso em assumir novas responsabilidades e
mostrar que estava entrando para o mundo dos adultos, que a classe
média brasileira se comportou por décadas.
Empregada
no serviço público ou em empresas multinacionais, orgulhava-se
com as transferências de responsabilidade do Estado para o seu
contra-cheque. Afinal era uma questão de status social mostrar
que os filhos estavam em escolas privadas, que ia para o trabalho
com o carro próprio, que morava em um prédio com porteiro e que
pagava um bom plano de saúde para família.
Na
noite da cidadania mal-construída - do trabalhismo getulista ao
esvaziamento político dos militares - nem percebia, coitada, que
estava ajudando a criar o caos que legou aos seus filhos.
Quando
acordou, descobriu-se num país sem escolas públicas
dignas, sem transporte público eficiente, sem segurança urbana,
sem seguridade social. Sentiu-se impotente diante de uma imensa
máquina estatal inoperante e corrupta. Entre uma copa do mundo e
outra, alegrava-se com algumas migalhas de subsídio ao
combustível aqui, um financiamento do BNH acolá.
Com
a hiperinflação, viu-se minguada, subtraída de milhões de
famílias que cruzavam a tênue linha para a pobreza, que no Brasil
significa exatamente não poder descontar do salário a escola dos
filhos, o transporte próprio, a segurança urbana, o plano de
saúde da família. (Quando o salário já não garante nem o
supermercado, aí cruzou-se a linha da miséria, mas raramente tal
destino fora reservado aos ex-classe-média.)
A
esperança de dias melhores retornou brevemente quando acabou a
inflação. Demorou quase uma década para a classe média
perceber que caíra num engodo e a máquina de empobrecimento não
fora desligada, apenas já não era alimentada pela inflação,
agora o era pela nova derrama tributária da Nova Nottingham.
No
Brasil, ao longo de todas estas décadas, enquanto o potencial de
se criar um estado de bem-estar social se esvaía, as armadilhas
de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos se
tornavam cada vez mais eficientes.
Criou-se
um Estado em que se a sonegação fosse nula, absorveria metade de
tudo que é produzido no país, para depois transferir boa parte
para os fundos de pensão norte-americanos, para os felizes
acionistas da Bradesco S/A, para a plutocrática classe política,
para a sistêmica corrupção, queimando o restante na
administração pública incompetente.
Fora
a clássica mais valia, as
armadilhas de transferência de renda estão em cada esquina do
país. No desconto compulsório do contra-cheque do hoje raro e felizardo
trabalhador de carteira assinada, contra a farra da sonegação dos
empresários, sempre seguida por periódicas, previsíveis e amigáveis anistias. Está
na universidade gratuita feita para filho de rico sair médico, filho de classe média sair
professor e filho de pobre só entrar como zelador. Está até no ferro de
passar roupa que o rico compra à vista por 30 reais e o pobre por
50, pois tem que pagar os juros do financiamento em 12 vezes das
Casas Bahia.
Tarde demais,
a classe média vai descobrindo estas
armadilhas que por duas ou três gerações ajudou a criar com seu
silêncio de ignorância e conivência. Agora, vítima, percebe desolada que não tem poder para desmontá-las. Cruel
ironia.
(texto de Mario Barbatti)
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