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Mario Barbatti


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[11/jul/2004] Um adolescente em  Nottingham

Foi como um adolescente orgulhoso em assumir novas responsabilidades e mostrar que estava entrando para o mundo dos adultos, que a classe média brasileira se comportou por décadas.

Empregada no serviço público ou em empresas multinacionais, orgulhava-se com as transferências de responsabilidade do Estado para o seu contra-cheque. Afinal era uma questão de status social mostrar que os filhos estavam em escolas privadas, que ia para o trabalho com o carro próprio, que morava em um prédio com porteiro e que pagava um bom plano de saúde para família.

Na noite da cidadania mal-construída - do trabalhismo getulista ao esvaziamento político dos militares - nem percebia, coitada, que estava ajudando a criar o caos que legou aos seus filhos.

Quando acordou, descobriu-se num país sem escolas públicas dignas, sem transporte público eficiente, sem segurança urbana, sem seguridade social. Sentiu-se impotente diante de uma imensa máquina estatal inoperante e corrupta. Entre uma copa do mundo e outra, alegrava-se com algumas migalhas de subsídio ao combustível aqui, um financiamento do BNH acolá. 

Com a hiperinflação, viu-se minguada, subtraída de milhões de famílias que cruzavam a tênue linha para a pobreza, que no Brasil significa exatamente não poder descontar do salário a escola dos filhos, o transporte próprio, a segurança urbana, o plano de saúde da família. (Quando o salário já não garante nem o supermercado, aí cruzou-se a linha da miséria, mas raramente tal destino fora reservado aos ex-classe-média.)

A esperança de dias melhores retornou brevemente quando acabou a inflação. Demorou quase uma década para a classe média perceber que caíra num engodo e a máquina de empobrecimento não fora desligada, apenas já não era alimentada pela inflação, agora o era pela nova derrama tributária da Nova Nottingham.

No Brasil, ao longo de todas estas décadas, enquanto o potencial de se criar um estado de bem-estar social se esvaía, as armadilhas de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos se tornavam cada vez mais eficientes.

Criou-se um Estado em que se a sonegação fosse nula, absorveria metade de tudo que é produzido no país, para depois transferir boa parte para os fundos de pensão norte-americanos, para os felizes acionistas da Bradesco S/A, para a plutocrática classe política, para a sistêmica corrupção, queimando o restante na administração pública incompetente.  

Fora a clássica mais valia, as armadilhas de transferência de renda estão em cada esquina do país. No desconto compulsório do contra-cheque do hoje raro e felizardo trabalhador de carteira assinada, contra a farra da sonegação dos empresários, sempre seguida por periódicas, previsíveis e amigáveis anistias. Está na universidade gratuita feita para filho de rico sair médico, filho de classe média sair professor e filho de pobre só entrar como zelador. Está até no ferro de passar roupa que o rico compra à vista por 30 reais e o pobre por 50, pois tem que pagar os juros do financiamento em 12 vezes das Casas Bahia.

Tarde demais, a classe média vai descobrindo estas armadilhas que por duas ou três gerações ajudou a criar com seu silêncio de ignorância e conivência.  Agora, vítima, percebe desolada que não tem poder para desmontá-las. Cruel ironia.

(texto de Mario Barbatti)

 


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