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Mario Barbatti


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[08/ago/2004] As estrelas em Cambridge

Cientistas, como qualquer outro grupo profissional, formam sociedades de auto-congratulação. Distribuem medalhas, diplomas e auto-elogios entre si. Homenageiam os que se destacam, se aposentam ou morrem. Nada mais natural. Este narcisismo coletivo, apesar de um pouco ridículo, tem funções simbólicas importantes para ajudar manter a coerência do grupo, afinar discursos, definir poderes políticos e estas coisas sem as quais as instituições perdem sua estabilidade.

Entre 24 e 29 de julho deste ano, ocorreu em Cambridge, Reino Unido, um destes eventos. Com o pomposo nome "Química Quântica Molecular, o insensato caminho para o progresso", foi uma conferência para homenagear o Prof. Nicholas C. Handy, que está se aposentando. 

Festa de aposentadoria ocorre aos milhares pelos escritórios de qualquer repartição púbica todos os dias. O destaque para esta vem, no entanto, do porte da conferência, que reuniu os maiores nomes da química quântica em todo o mundo. Estavam presentes astros de primeira grandeza como Michele Parrinelo, David Clary, H. F. Schaefer III, Ernest Davidson, Reinhart Ahlrichs, I. Shavitt e Axel Becke. O Nobel de química John Pople também estaria lá, não tivesse falecido há poucos meses.

A química quântica molecular nasceu no século vinte junto e como subproduto da mecânica quântica. Mas padeceu por três ou quatro décadas das limitações computacionais envolvidas absurdo trabalho de se resolver a equação de Schrödinger para um sistema de vários núcleos e elétrons. Ficou por muito tempo restrita a pequenos sistemas moleculares, com não mais que dois ou três átomos, e mesmo assim sujeitos à fortes aproximações.

Com a rápida evolução dos computadores nas últimas duas décadas, a química quântica floresceu não só como disciplina autônoma, mas como auxiliar de outras ciências, como a biologia molecular e a ciência de materiais.

O desenvolvimento da química quântica molecular chegou a tal ponto, que pode-se tanto obter resultados virtualmente exatos para uma molécula pequena, com não mais que uns vinte átomos, quanto também pode-se utilizar métodos mais aproximados para se calcular sistemas com um ou dois milhares de átomos. E se popularizou de tal maneira, que mesmo um não-especialista com algum conhecimento específico pode, utilizando um software comercial como o Gaussian, obter resultados básicos para moléculas de seu interesse. 

Dificilmente na década de 70, alguém se arriscaria a calcular as propriedades de uma molécula com mais de três átomos, e se o fizesse dificilmente iria além de uma aproximação com alguns poucos determinantes para descrever a função de onda. Hoje, resolver a equação de Schrödinger para sistemas moleculares, às vezes usando-se milhões de determinantes, tornou-se rotina na academia e na indústria, e - sem dúvida - em boa parte graças às estrelas que homenageavam Nicholas Handy. 

Neste sentido, os conferencistas em Cambridge tinham toda a razão em se auto-congratular, enquanto passeavam pelos inspiradores jardins do colégio de St. John. 

Mas infelizmente, se a intenção era honrosa, a forma fora horrível. Com algumas poucas exceções, como Mike Robb discutindo o papel das seqüências de interseções cônicas nas reações químicas, muito pouca química e física molecular foi vista naquela conferência. As palestras se resumiam quase que exclusivamente a mostrar tabelas comparando métodos de cálculo, enfeiada pelo tenebroso vício de quase todos os palestrantes de tentar mostrar em trinta minutos um pouco de cada uma das duas dúzias de linhas de pesquisa de seu grupo. 

Com suas ilegíveis tabelas, mostravam, um a um, como o novo método desenvolvido em seu laboratório produzia resultados melhores que os outros disponíveis; Como desenvolveram um novo funcional iria resolver todos os problemas de correlação eletrônica; Como a nova abordagem do espaço de orbitais virtuais diminuiria o tempo de cálculo radicalmente. 

Existe entre os cientistas esta certeza incondicional de que sempre estamos caminhando no "sentido certo". De que o progresso é uma verdade histórica inexorável da qual é impossível escapar. Por isto, fazia todo sentido mostrar as tais tabelas, como parte deste acúmulo quantitativo de informação que serviria como força motora da história da ciência. 

Para o observador cético, contudo, havia algo de falso neste reino de progresso. Mesmo que os avanços no cálculo de sistemas moleculares pequenos e médios sejam incontestáveis, nenhum dos métodos disponíveis hoje parece que um dia vai dar conta do problema central da física, a transição entre o micro e o macro. É muito difícil crer que avanços computacionais cheguem ao ponto de permitir a aplicação das atuais teorias a sistemas com 1 milhão ou 1 bilhão de átomos.  

Desde os tempos de escola que aprendemos que toda a matéria de nosso universo é constituída de moléculas, e estas, por sua vez, de átomos. Esta afirmação, que soa trivial, esconde imensos problemas conceituais ainda não resolvidos. Todas as justificativas que são apresentadas como evidências, se baseiam em propriedades que dependem de átomos ou pequenas moléculas isoladas, como o espectro de absorção ou emissão eletromagnética de um gás. 

Às vezes, a evidência pode depender de grandes conjuntos moleculares, como a condutividade elétrica, ou a temperatura de um material. Mas nestes casos, os físicos estão honestamente trapaceando. No primeiro, usando os métodos da física do estado sólido, o que normalmente significa impor condições de contorno periódicas aos sistemas atômicos ou moleculares. Ou seja, tratar o grande conjunto de átomos ou moléculas como repetições de um subconjunto bem menor e portanto calculável. No segundo caso, usando os métodos da física estatística, que normalmente implicam em impor que uma função de variáveis de estado (pressão, temperatura, magnetização, etc.) possa ser deduzida de uma função das variáveis mecânicas (posição e velocidade de cada átomo ou molécula).

E este é o ponto: por um lado, a física do estado sólido é extremamente limitada à materiais com estruturas cristalinas, por outro, perde-se uma imensa quantidade de informação ao se trabalhar estatisticamente, sem falar que não está ainda matematicamente provado que existe esta possibilidade de se descrever o mundo macroscópico a partir das variáveis microscópicas. Ilya Prigogine clamava ter resolvido este último problema, mas a sua reformulação da mecânica clássica e quântica para provar o chamado "Teorema H", está longe de ser aceita (ou mesmo conhecida) pela comunidade científica.

De qualquer modo, a descrição teórica num nível molecular de processos meso e macroscópicos, que não se enquadrem nos métodos de estado sólido ou estatísticos, como a reprodução celular ou a neuroquímica dos processos mentais, está ainda fora do horizonte de possibilidades. Possivelmente dependerá - se é que um dia chegaremos a esta descrição - de uma profunda reformulação conceitual da teoria molecular.

Neste sentido, todas as tabelas e métodos que se aplaudiram em Cambridge não são mais do que andar de caranguejo. Mas para não dizer que nada aconteceu nos jardins do colégio St. John, guarde o nome de David Mazziotti, possivelmente você ainda vai ouvir falar nele. Professor da Universidade de Chigago, hoje com pouco mais de trinta anos, Mazzioti mostrou como química quântica molecular pode ser feita reduzindo o problema de vários elétrons à apenas dois elétrons, usando a indistinguibilidade entre eles. Se sua teoria for mais do que fogo em palha seca, ou não esbarrar em algum obstáculo intransponível, pode ser realmente um destes passos insensatos em direção ao progresso.  

(texto de Mario Barbatti)

 


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