[27/out/2004]
A melancólica crônica das capitanias
"O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva está passando o domingo
em Brasília, sem compromissos previstos na agenda.
Aparentemente bem disposto, trajando um agasalho da Força Aérea
Brasileira, o presidente caminhou neste domingo de manhã pelo
jardim da Granja do Torto, a residência oficial depois que o
Palácio da Alvorada entrou em obras. Em companhia da primeira
dama, Dona Mariza Letícia, o presidente supervisionou o
pomar, parou de árvore em árvore e até experimentou alguns
frutos."
O Globo On Line, domingo, 24/out/2004, 13:02.
Mesmo
distante do país, cultivo o péssimo hábito de ler os jornais
nacionais. Meu intrínseco masoquismo me obriga a acompanhar com
uma certa freqüência as notícias de O Globo e da Folha de São
Paulo, mesmo sabendo que o que leio nas sérias colunas da Helena
Chagas (O Globo) ou do Clóvis Rossi (Folha) não tem muito mais
substância que uma crônica dos famosos de uma revista
Caras.
À
guisa de "análise de conjuntura", colunistas como
Teresa Cruvinel (O Globo), Eliane
Catanhêde (Folha) e Fernado Rodrigues (Folha) não fazem muito
mais do que destilar
superficialidades estatísticas e fofocar sobre a provável queda
do ministro X, para acomodar o aliado insatisfeito Y.
E
há também os seres bizarros semanais, como Arnaldo Jabor (O
Globo, terças) e sua grandiloqüência de botequim, deprimido com
o conluio Bush-Osama, para destruir o Ocidente. Ali Kamel (O Globo,
terças) fazendo contorcionismos estatísticos para provar que os
pobres no Brasil são uma minoria privilegiada. Mangabeira Unger
(Folha, terças) sonhando como seria melhor o mundo caso ele fosse
seu líder absoluto. Luiz García (O Globo, sextas) fazendo
gracejos patéticos para disfarçar a sua absoluta falta de
idéias originais. Olavo de Carvalho (O Globo, sábados)
anunciando o apocalipse que há de vir pelas mãos de neonazistas, gays, comunistas, islâmicos e narcotraficantes que
se uniram para tomar o poder global.
A
mediocridade não é nem disfarçada em colunas de pura fofoca
de bastidores, como a do Ancelmo Gois, ou no equivalente paulista,
a Seção Painel. Posso agora, enquanto escrevo, simplesmente
abrir O Globo e pescar um exemplo:
"No
papo com Lindberg Farias, no Rio, Lula avisou que, nesta reta
final da campanha em Nova Iguaçu, vai enviar à cidade o comissário
Zé Dirceu. Missão: transmitir ao povão que a vitória de
Lindinho é desejo pessoal do presidente e que ele próprio só
não vai lá dizer isso em respeito à lei eleitoral."
Ancelmo Gois, O Globo, 23/out/2004.
Note
que nesta nota não há trabalho jornalístico algum. Nenhuma
investigação, entrevista ou checagem dos dados. O jornalista
apenas reproduz o que o comando da campanha do candidato julga
interessante que apareça na imprensa. Garoto de recado.
Jornalistas,
editores e colunistas garantem seus empregos quão mais competentes
forem em convencer o público da crítica importância da última
declaração bombástica do Zé Dirceu e da resposta ácida do
senador Jereissati. Eu gosto de exemplo, e tenho certeza que o
caro leitor também, portanto deixe-me abrir a Folha de São Paulo
e pegar mais algum:
"Enquanto eram
apenas pobres, as metáforas do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva podiam ser lamentáveis, mas não causavam males maiores.
A mais recente delas, em discurso a agentes de viagem, passou
dos limites. Reproduzo-a a seguir:
'Se o cidadão toma um cascudo da mulher à noite porque chegou
tarde, ele não vai dizer: a minha mulher me deu um cascudo. Ele
vai dizer: a minha mulher ficou brava, nervosa, mas a cabeça
está doendo'.
Quando o principal funcionário público convida à mentira, ao
ocultamento de fatos graves, tem-se um péssimo exemplo de
liderança. (...).
É esse ocultamento, recomendado por Lula, que está na origem
da violência doméstica que faz incontáveis vítimas entre as
mulheres." Clóvis Rossi, Folha, 23/out/2004.
Ora,
eu também acho odiosas as metáforas usadas pelo presidente. Mas
o colunista quer convencer o leitor que esta metáfora em
particular é um momento central da história política atual,
pois incentiva e legitima a violência doméstica! Já posso até
imaginar quantos espancamentos ocorrerão amanhã motivados pela
sanção presidencial...
Felizmente,
ainda podemos encontrar algum sinal de vida inteligente atrás das
prensas, nas colunas de Merval Pereira (O Globo), Mirian Leitão (O Globo) e Elio Gaspari (O
Globo e Folha).
Escrevo
uns dois textos do Defenestrando Idéias por mês, e confesso que
nem sempre estou muito inspirado. Imagino o quão complicado deve
ser manter colunas diárias, como é o caso de boa parte destes
colunistas citados aqui, com alguma originalidade.
Mas
jornal é efeméride e, no final do dia, tanto o editorial quanto a
seção de horóscopo estarão unidos na mesma cesta de lixo. É
isto que dá aos profissionais da imprensa esta leveza no escrever
sobre tudo sem rigor, com suas pautas repetitivas e opiniões
triviais. Possivelmente,
os jornais ganhariam em qualidade se os editores diminuíssem os espaço fixos diários, dando lugar a um corpo mais amplo de
cronistas e especialistas convidados.
Mas
mesmo este eventual ganho na qualidade e diversidade dos textos
jornalísticos não tocaria no ponto central da questão, que é a
relação entre a imprensa e o poder.
No
texto anterior do Defenestrando Idéias (A
maldita herança das capitanias), eu divagava sobre o
quanto a classe política vinha se constituindo cada vez mais numa
classe social de fato, com regras corporativas e éticas
específicas, renovando-se por uma profundamente anti-republicana
endogenia, e mantendo-se às custas do aparelhamento do Estado. A
classe política no Brasil atual diferencia-se de uma nobreza
tradicional apenas porque se legitima por meio de pleitos
periódicos, mas mesmo as características de hereditariedade
estão presentes em algum grau.
Provavelmente,
os primeiros a se dar conta deste fenômeno foram exatamente os
jornalistas políticos,
que passaram a viver em simbiose com a nova nobreza,
trabalhando como garotos de recado imbuídos de dar um ar sério
às fofocas de salão plantadas diariamente pelos grupo em disputa
pelo poder.
O
jornalismo político vive de factóides e falsas polêmicas,
enquanto fantasia-se de arauto do interesse público e
democrático, se autoproclamando o "Quarto Poder". A
classe política, por sua vez, tornou-se dependente do jornalismo
político. Não só por que é eleitoralmente útil estar em paz
com os "formadores de opinião", mas principalmente
porque o jornalismo político tornou-se a mídia informal para
fazer circular os fatos de seu interesse, fazer balões-de-ensaio
sociais e provocar reações de adversários.
É
uma relação de interdependência que se sustenta por regras de
convivência mútua não declaradas. O projeto de criação do
Conselho Federal de Jornalismo, defendido pelo governo federal,
foi um exemplo de quebra destas regras de convivência, e todos vimos
a reação histérica dos jornalistas naquelas semanas. O que o
governo não havia entendido é que o jornalismo político, mesmo
com suas críticas mais contundentes, trabalha para construir um
discurso de legitimidade da "nova nobreza" junto à
"sociedade civil".
Então,
caro leitor culto e crítico, na próxima vez que for torcer o
nariz para o lixo publicado na forma da revista Caras, lembre-se
que a sua leitura semanal da revista Veja não é muito superior,
apenas está disfarçada com a seriedade das gravatas no
planalto.
(texto de Mario Barbatti)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
A
maldita herança das capitanias
Os
livros
de Lula
Capital não combina com democracia
Cada
povo tem a bandidagem que merece
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