[07/mar/2005] O
padre diante do fogo
Era
uma vez, num reino distante, um prédio que se incendiava. Numa
das salas do prédio havia uma assustada criança de seis anos.
Noutra, um refrigerador com milhares de saudáveis
blastócitos congelados.
A
única testemunha da tragédia era um padre que sabia que tinha
que escolher entre salvar a criança ou os embriões. Seu
coração dizia que deveria resgatar a criança, mas a lógica,
por tudo que aprendera com os sábios do Vaticano, lhe dizia que a
boa opção deveria ser o resgate das milhares de almas que
dormiam ignorantes no tanque de nitrogênio líquido.
Se
você, caro leitor, é católico, pergunte ao padre de sua
paróquia como ele agiria. Se ele optar pela hipótese de salvar a
criança, denuncie-o ao conselho de bispos; se optar pelos
blastócitos, você saberá que não perderá nada se faltar a
próxima missa dominical.
Vivemos
num mundo complicado, com novos problemas pedindo por solução
muito antes que os velhos tenham sido equacionados. A novidade
(talvez nem tão nova) é que a Igreja agora é parte dos
problemas.
Presos
na sua profunda cegueira escolástica, as autoridades
eclesiásticas tornaram-se mestre em falsas interpretações e
doutas em propor soluções erradas. Se isto fosse apenas uma
questão de fé e outras futilidades contemplativas, nem me daria ao trabalho de escrever este texto.
Mas a Igreja tenta cada vez mais intervir na vida de
cada um de nós, o que pelo menos merece que nos mantenhamos
alertas.
Só
para ficar com o exemplo dos embriões, qualquer pessoa razoável
sabe que existe uma diferença qualitativa entre uma criança e um
blastócito. Mas desafiando o razoável, vemos o Vaticano e seus
bispos se
impondo aos legisladores seculares, tentando vender a idéia de
que existe um momento mágico chamado "concepção", no
qual a alma se instala no corpo material.
Desafiar o razoável
não é em si o problema. Mas quais as evidências para a hipótese deste "salto ontológico", para usar um termo
do Papa? Nenhuma. Pura especulação metafísica. E afinal, no
nível celular, qual é realmente o momento da concepção? Quando
o primeiro espermatozóide rompe a membrana do óvulo? Quando
todos os outros espermatozóides que penetraram o óvulo são
expulsos? Quando o genoma dos dois gametas se fundem criando um
novo, o que pode ocorrer dois dias após a entrada do
espermatozóide?
Bom,
nem tente perguntar ao bispo... Em 1996, o Papa já jogava o
problema para baixo do tapete e dizia que
"O
momento da passagem para o espiritual não é objeto duma
observação deste tipo [científica], que não pode nem sequer
manifestar, a nível experimental, uma série de sinais muito
preciosos da especificidade do ser humano. Mas a experiência do
saber metafísico, da consciência moral, a da liberdade, ou
ainda a experiência estética e religiosa, são da competência
da análise e da reflexão filosóficas, ainda que a teologia
esclareça o seu sentido último segundo os desígnios do
Criador."
João Paulo II, 22 de Outubro de 1996.
É a
questão do perímetro. Como já discuti aqui no Defenestrando
Idéias, segundo o Vaticano, a relação entre a ciência e a
fé católica deve se dá por estabelecimento de um perímetro a
partir do qual a ciência não poderia avançar e só a fé
poderia dar respostas adequadas. Esta é a idéia básica contida
na encíclica Fé e Razão, de 1998.
O
problema é que este perímetro é flexível, e na medida que se
alcançam novos conhecimentos científicos, ele recua no
horizonte. A Igreja tem que ser cuidadosa para não se tornar
anacrônica diante da ciência.
"Convém
delimitar bem o sentido próprio da Escritura, descartando
interpretações induzidas que lhe fazem dizer o que não é sua
intenção dizer. Para bem delimitar o campo do seu objeto próprio,
o exegeta e o teólogo devem estar informados sobre os
resultados, aos quais conduzem as ciências da natureza."
João Paulo II, 22 de Outubro de 1996.
Mas
até que ponto uma instituição essencialmente conservadora é
capaz de recuar? As neurociências e as ciências cognitivas
avançam a passos largos sobre a última grande caixa-preta do
conhecimento, a alma humana. Na medida que a ciência vai
mostrando que nossos corpos não são habitados por um fantasma
doado por Deus no momento da concepção, ela está criando uma
tensão que se for resolvida em favor da ciência, implicará em
mudanças conceituais muito mais amplas que a ocorridas no tempo
de Copérnico.
Numa
época em que mesmo a revolução darwiniana não foi ainda
assimilada pela maior parte da população, a ciência começa a
mexer num tema que vai de encontro a um dos nossos mais profundos
instintos, o de que "habitamos" nossos corpos. O risco
que corremos é o de vermos se acentuar de forma cada vez mais
intensa uma separação entre aqueles os que detém uma cultura
científica e o resto da sociedade.
No que
depender da Igreja, ela parece não aceitar recuar nesta parte do
perímetro, como deixou claro o Papa:
"Como
conseqüência, as teorias da evolução que, em função das
filosofias que as inspiram, consideram o espírito como
emergente das forças da matéria viva ou como um simples epifenômeno
desta matéria, são incompatíveis com a verdade sobre o homem.
Elas são por outro lado incapazes de fundar a dignidade da
pessoa."
João Paulo II, 22 de Outubro de 1996.
E
antevendo a ruptura, lança um apelo aos cientistas, para que
prossigam "nos seus esforços, permanecendo sempre naquele horizonte
sapiencial onde aos resultados científicos e tecnológicos se
unem os valores filosóficos e éticos, que são manifestação
característica e imprescindível da pessoa humana". (João
Paulo II, Fé e Razão, 1998.)
Mas a
ciência, no entanto, por si, se move.
Em termos
práticos, fico feliz ao constatar que ao menos no Brasil, o
melhor do catolicismo são os católicos, que com exceção dos
carismáticos, não tendem a ser particularmente fundamentalistas
ou ortodoxos. Pelo contrário, são bastante abertos a aceitarem
verdades oriundas mesmo de fontes contraditórias entre si. Basta
ver como um católico típico transita sem drama filosófico entre
a missa, a astrologia, e a curiosidade sobre o que ele foi na
outra vida. Esta deliciosa mistura incoerente é um bom indicativo
de que na medida que a educação média da população aumentar,
a separação entre o que sabe o cientista e o que sabe a
sociedade pode não ser tão traumática.
Foi com esta
flexibilidade pragmática que a lei de biossegurança que autoriza
a pesquisa com células-tonco foi aprovada pelo congresso
brasileiro, por uma maioria esmagadora, a despeito das pressões
da Conferência Nacional dos Bispos.
Mas
quem dera o elenco de falácias e besteiras enunciadas pelo Papa e
seus bispos se resumisse apenas a questão dos embriões. Elas se
espalham como uma peste pelos mais variados temas sensíveis da
atualidade, do planejamento familiar ao combate à violência. E como que revivendo um saudosismo dos desmandos
medievais, a Igreja se insurge até contra o maior bem da cultura
contemporânea, a democracia.
No seu
último livro, João Paulo II ensina que não se pode "canonizar"
a democracia e lembra que que outras formas de governo, como aristocracia e monarquia, podem, "em determinadas condições, servir
para a realização do objetivo essencial do poder, isto é, o bem comum".
É
sintomático que a exploração feudal, a escravidão colonial ou
as teocracias islâmicas não tenham sido incluídas pelo Papa entre
as "ideologias do mal", o comunismo e o
nazismo.
Talvez
o mal destas duas últimas não esteja no que elas têm em comum
com as outras, que é o desprezo pela vida humana; talvez esteja
no fato de que elas não se prestam como instrumento de poder para
Igreja e seu sonho de impor os seus delírios moralista-metafísicos ao conjunto da sociedade.
(texto de Mario Barbatti)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
Cidadão Blastócito
Uma sombra sobre o Rio
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