[02/mai/2005] Deus e o diabo na terra da razão
(I)
1. Encontrando Leuba
Conheço cientistas cristãos: Católicos e
catolaicos. Conheço cientistas com o pé no terreiro de umbanda e outros que seguem lendo
Kardec. Conheço cientistas supersticiosos, que repassam correntes da internet e até um que crê que os deuses são astronautas. Poderia
até citar uma tese de doutorado recente, em física de colisões
atômicas, na qual o autor antes de tudo agradece a Alá.
Em toda a história da ciência é possível identificar uma boa gama de diferentes posições religiosas por parte dos cientistas individualmente. No século 17, havia extremos que iam do ateísmo radical de Thomas Hobbes ao cristianismo místico de Isaac Newton. Indo do século 19 ao 20, Maxwell era cristão; Einstein, panteísta;
Chandrasekhar, ateu.
Em 1916, o psicólogo James Leuba realizou uma pesquisa entre 1000 físicos e biólogos norte-americanos. Ele
mapeou dois pontos, primeiro se o cientista acreditava num Deus que se comunicava com os homens e que respondia a preces e, segundo, se o cientista acreditava em imortalidade pessoal.
Os entrevistados foram divididos em "cientistas" e
"grandes cientistas", de acordo com a designação do
catálogo American
Men of Science, do qual os nomes foram aleatoriamente
selecionados.
A pesquisa foi repetida por Leuba em 1933
entre os "grandes cientistas" e depois novamente
repetida por Larson e Witham em 1996 e 1998. Nesta última,
foram considerados "grande cientistas" os cientistas
pertencentes à National Academy of Science. Os resultados
estão resumidos na tabela abaixo.
| |
Cientistas |
Grandes
cientistas |
| |
1916 |
1996 |
1916 |
1933 |
1998 |
| Deus
pessoal |
|
|
|
|
|
| Acredita |
42 |
39 |
28 |
15 |
7 |
| Não
acredita |
42 |
45 |
53 |
68 |
72 |
| Não
sabe/ tem dúvidas |
17 |
15 |
21 |
17 |
21 |
| Imortalidade
pessoal |
|
|
|
|
|
| Acredita |
51 |
38 |
35 |
18 |
8 |
| Não
acredita |
20 |
47 |
25 |
53 |
77 |
| Não
sabe/ tem dúvidas |
30 |
15 |
44 |
29 |
23 |
Um resultado
que salta aos olhos é que os percentuais de crença, descrença e
dúvida sobre a existência de um deus pessoal praticamente não
se alteraram entre os cientistas norte-americanos num período de 80 anos.
Cerca de 40% acreditavam num deus pessoal em 1916, e isto
permanece verdadeiro em 1996.
Na
pesquisa de 1916, os percentuais para a questão sobre Deus são
curiosamente distintos daqueles sobre imortalidade. Supondo que a
pesquisa é correta, ela mostra um cenário onde 10% dos
cientistas não acreditam em um Deus pessoal, mas acreditam na sua
própria imortalidade. Isto seria facilmente explicado se
houvessem orientais entre os entrevistados, mas a pesquisa fora
realizada apenas entre norte-americanos. Curiosamente, em 1996,
quando o pensamento oriental está muito mais difundido no
ocidente, os percentuais relativos ao Deus pessoal e à
imortalidade se alinham em valores que indicam que aqueles que
acreditam em um, também acreditam no outro.
Enquanto
que entre os cientistas em geral os resultados não mostram
diferenças qualitativas ao longo dos anos, entre os "grandes
cientistas", os resultados são completamente distintos: o
número de crentes em Deus pessoal e imortalidade caiu pela metade
entre 1916 e 1933, e depois voltou a cair pela metade novamente
entre 1933 e 1998.

Crença ...

... e descrença
entre os "grandes cientistas".
De
1916 a 1933, entre os "grandes cientistas", aumentaram
tanto a descrença num Deus pessoal quanto em imortalidade. Entre
1933 e 1998, a descrença na imortalidade aumentou fortemente,
enquanto a descrença num Deus pessoal estabilizou.
2.
Além de Leuba: May the Force be with you
Engraçado
como certos irrelevantes episódios ficam gravados em nossa
memória, mesmo quando são um simples diálogo que assistimos
quando criança numa novela das seis passada no distante ano de
1982. Quando José Eleutério, o personagem de Kadu Moliterno na
novela Paraíso, chegou na cidade, ele fora questionado por um
grupo de desconfiadas beatas se ele acreditava em Deus. Respondera
que sim, acrescentando que Deus estava na natureza, nas formas de
vida, na harmonia do mundo. As beatas saíram satisfeitas com a
resposta, sem saber que haviam caído num engodo
anticristão.
Esta
expressão de Deus como harmonia do mundo é a mesma que fazia a
família Skywalker particularmente hábil com a manipulação de
lâmpadas fluorescentes, cultivou a fama de Fritjof Capra e
aparece na reflexões metafísicas do maior popstar da ciência,
Albert Einstein.
O
panteísmo pode ser bom para vender livros e filmes, mas
representa de fato um perigo para as religiões reveladas. Os
rabinos de Amsterdã sabiam disto quando, em 1656, expulsaram da
comunidade o seu principal formulador dentro da tradição
filosófica européia, Baruch de Espinosa. Principal, mas não
único: discussões se Deus era o próprio universo ou seu criador
esquentavam os debates entre os neoplatônicos na virada dos
séculos 16 para o 17.
O Deus
antropomórfico ao qual se ora e espera resposta; ao qual se
atribui virtudes e vícios humanos como bondade ou vingança
simplesmente perde o sentido no panteísmo, no qual Deus
emana sem forma e sem consciência. Nesta perspectiva, Deus é a
harmonia que torna o universo inteligível e se distingue
profundamente de Alá, Jeová ou Jesus.
(De
fato, o cristianismo não é completamente alheio ao panteísmo.
Provavelmente um dos motivos do seu sucesso nestes dois últimos
milênios foi conseguir conjugar as várias possíveis expressões
de Deus no conceito de Trindade. O Deus-pai é conceitualmente
similar ao Deus hebraico, ou aos Deuses greco-romanos, uma figura
sobrenatural poderosa e antropomórfica. O Deus-filho, Jesus, que
nas nasce União do Deus pai com uma mortal, é conceitualmente
similar aos semideuses greco-romanos ou aos Faraós egípcios.
Finalmente, o xamanismo panteísta ganha seu representante com o
Espírito Santo que é o Deus sem forma que penetra e inspira,
similar ao Deus-harmonia, ao Deus-natureza da Europa pagã.)
Infelizmente
a pesquisa de Leuba-Larson-Witham não permite avaliar o quanto o
panteísmo é comum entre os cientistas. Pessoalmente creio que
deva ser bastante popular, principalmente por permitir uma natural
integração entre o sentimento religioso e o pensamento
racional-científico, passando ao largo do incômodo
antropomorfismo das religiões reveladas.
Se o
questionário de Leuba fosse estendido para avaliar tanto a
crença num Deus pessoal quanto num Deus-harmonia, o número de
crentes entre os cientistas norte-americanos provavelmente subiria para
algo similar ao número de crentes entre a população inglesa ou
francesa. Explico o porquê num próximo texto, mas antes vamos
passear pela natureza da religião.
(texto de Mario Barbatti)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
Deus e o diabo na terra da razão
(IV)
Deus e o diabo na terra da razão
(III)
Deus e o diabo na terra da razão (II)
Sr. Spock, Teseu e o porco-espinho
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