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Mario Barbatti


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Defenestrando idéias
   
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[11/set/2005] Anjos sem braços, gatos sem rodas e o singular de nossa existência

1- Anjos não têm braços

Sempre me admiro com a magnífica variedade da vida em nosso planeta. E por isto mesmo, uma questão me intriga: por que a natureza não gosta de rodas? Os seres que se locomovem sobre terreno sólido, o fazem ou por contrações e distenções do corpo ou por meio de membros articulados como pernas. Não há um único que use rodas. Similarmente, a propulsão e a sustentação na água e no ar são sempre feitas por contrações e distenções corporais e movimento de membros com caudas e asas. Por que não há um único exemplo de seres usando hélices?

Pode ser que a resposta esteja na mecânica. Basicamente rodas e hélices (e também roscas e engrenagens) exigem corpos com partes disjuntas como na figura abaixo. Mas com tudo que a evolução criou, não duvido nem por um instante que ela seria capaz de dar origem a seres com bons sistemas de eixos, de tranmissão e de lubrificação.

Rodas, hélices e engrenagens precisam de partes disjuntas

A não existência de rodas na natureza não deve ser uma impossibilidade biomecânica, apenas um acidente evolutivo. A definição de propriedades centrais dos seres, como o plano corporal ou a existência ou não de partes disjuntas, se deu em estágios primários da evolução. Desde então, varia-se, varia-se, mas sempre dentro de limites. Usando a metáfora de Richard Dawkins, em evolução, pode-se escalar a montanha, mas nunca pular de uma para outra. Mas se tantas montanhas foram criadas em nosso mundo, quantas outras podem haver para além dele?

É isto que me incomoda com os extra-terrestres que habitam a TV e o cinema: com algumas poucas variações, eles são incrível e banalmente semelhantes aos humanos. O mesmo plano corporal com simetria bilateral. Bípedes com cabeça, corpo e membros. Cabeça com boca e dois olhos. Os ETs, como os deuses, são representados à nossa imagem e semelhança.

A menos que nós, humanos, e eventuais ETs tenhamos uma origem em comum, tais coincidências são profundamente improváveis, e  só para não dizer impossíveis, pode ser que nosso padrão corporal seja especialmente adequado para sustentar vida inteligente e, portanto, onde quer que ela surja no universo, será parecida basicamente conosco. Bom, eu não apostaria dois centavos nesta hipótese de um " atrator evolutivo", se bem que em nosso planeta aconteceram coisas do gênero, como olhos e asas, características que evoluíram independentemente diversas vezes.

Por mais que eu tente, não vejo realmente nenhuma vantagem em nosso padrão corporal que não pudesse ser compartilhada por outro padrões muito diferentes. Braços com mãos, por exemplo, são uma óbvia vantagem para quem sobrevive de manipular o ambiente. Mas para esta função, braços com mãos não são uma necessidade. Pense na tromba do elefante, também extremamente hábil para manipular o ambiente.

Bom, em nosso planeta é obrigatório: mamíferos, repteis e anfíbios possuem quatro membros. Podem estar na forma de braços, pernas, asas ou nadadeiras, mas serão sempre quatro. Por isso anjos e dragões não podem ter braços e asas ao mesmo tempo. Ou um par ou outro. Mas braços, pernas e asas são coisas nossas, coisas de terráqueos. Fora daqui, os limites são só as leis da física. É divertido imaginar mundos cheios de gatos com rodas perseguindo pássaros com hélices.   

2- Um universo mudo

Com incontáveis estrelas e planetas no universo, é inquestionável que a vida não está restrita ao nosso pequeno mundo. Esta é a única certeza sobre vida extra-terrestre, todo o mais repousa em algum ponto entre o extremo da especulação cientificamente embasada e o da pura esquizofrenia.

A vida na Terra parece ter surgido tão logo o planeta desenvolveu condições físico-químicas adequadas para a existência estável de macromoléculas orgânicas, ou seja, bastante energia disponível para ativar reações químicas complexas, mas não em excesso que levasse à rápida dissociação dos produtos formados.

Deste ponto de vista, é uma suposição razoável pensar que a vida é um fenômeno extremamente comum. Uma consequência natural do aumento da complexidade química, ocorrendo em um sistema alimentado por uma fonte externa de energia, tal como o sol ou fontes geotérmicas. O limiar obscuro entre o complexo químico inanimado e o mais simples objeto vivo é simplesmente a capacidade de produzir cópias de si mesmo. A partir deste ponto, só o que importa é evolução, evolução e evolução.

Tendo surgido a vida, o caminho evolutivo que culmina em seres inteligentes interessados em conhecer o universo deve ser mais ou menos direto, não é? 

Diria que é bem provável que se encontre coisas vivas como vírus ou bactérias em qualquer buraco razoavelmente quente da galáxia. Daí a acreditar que o universo está cheio de planetas com espécies inteligentes vai um imenso caminho. Por fim, acreditar que há pilotos de disco estacionados em plantações de milho do meio-oeste americano aproxima-se rapidamente do extremo da esquizofrenia.

Defensores da existência da vida inteligente extra-terrestre costumam usar o argumento estatístico: com tanta estrela por aí, deve haver inteligência em algum lugar. Mas argumento estatístico por argumento estatístico, nunca é demais lembrar que existe hoje em nosso planeta pelo menos 7 milhões de espécies e destas, apenas uma centena, entre alguns roedores, pássaros, peixes, octópodes, baleias e primatas, apresentam algum grau de acumulação cutural, e apenas duas, a nossa e a dos já extintos Homens de Neandertal, apresentaram níveis complexos de características culturais. 

Conte ainda que dos 3.8 bilhões de anos em que há vida na Terra, e mesmo diante dos 7 milhões de anos de história humana, iniciada com o surgimento do homo erectus na África, a atividade cultural complexa ocupa a ridícula fração de 50 mil anos. 

Nada bom estatisticamente... Olhando por este lado, a emergência de vida inteligente em nosso planeta parece ser menos uma necessidade do processo evolutivo, que uma singularidade, meio que um acidente raro, que não precisa se repetir em outros mundos vivos. Ou, pelo menos, se acontecer, será com uma frequência bastante baixa.

Para entender este ponto, a gente tem que olhar com cuidado para a evolução da espécie humana e entender os motivos que a fizeram depender tanto do fenômeno de transmissão cultural. Só a partir daí a gente pode especular quais são as condições necessárias para haver vida inteligente fora da Terra.

3- Dê graças ao Pleistoceno

O que há de singular na existência de uma espécie cultural é o fato de milhões de outras espécies agindo apenas pela programação genética provarem que em geral é mais vantajoso viver sem cultura.

A questão que se coloca, portanto, é: quais as condições que tornam favorável a evolução de uma espécie cultural? Quais características deve possuir a espécie? Quais características deve possuir o ambiente?

No que tange a nossa espécie, existem muitas hipóteses em debate. Pode ser que mudanças climáticas levando à redução das florestas pressionaram algum grupo de primatas a assumir uma postura bípede, liberando uso das mãos e disparando o processo evolutivo em direção à cultura. Ou pode ser que o gatilho desta evolução tenha sido o desenvolvimento cerebral motivado por uma dieta rica em proteína animal. Talvez um especialmente grande talento linguístico de um certo grupo de primatas criou uma pressão evolutiva na direção de uma capacidade de comunicação cada vez maior. 

Provavelmente não existe uma única causa que, com todo o restante sendo igual, levaria ao surgimento dos humanos. É mais plausível que várias condições tiveram que ser satisfeitas simultaneamente.

Em 2001 de Arthur Clarke, a causa de nossa evolução foram ETs curiosos ensinando nossos antepassados a manipular objetos. É possível, mas não é provável. De fato, explicações para adaptações são especialmente fáceis de se criar e dada a normal falta de evidências fósseis detalhadas é bem difícil provar a falsidade ou a veracidade delas.

A força de uma hipótese sobre adaptações se faz sentir na sua capacidade de também explicar as más adaptações (Por que sentimos dores nas costas quando ficamos muito tempo de pé? Por que temos coxi e apêndice? Por que homens têm mamilos? Por que perco tempo escrevendo este texto, em vez de estar tentando passar meus genes adiante?). 

E sob este ponto de vista, a teoria de Peter J. Richerson e Robert Boyd [1] sobre a evolução humana parece particularmente boa. Richerson e Boyd são estudiosos da cultura que têm mostrado por meio de modelos matemáticos como as variantes culturais se propagam entre indivíduos de forma similar à evolução dos organismos biológicos. Em particular, em sua discussão sobre o que levou ao desenvolvimento de nossa espécie, eles notam que houve um fator ambiental básico que pode ter engatilhado o processo: as rápidas e intensas variações climáticas do pleistoceno [2], período que se inicia há 2.5 milhões de anos e termina a 11 mil anos, com o fim da última glaciação.

Humanóides habitam o planeta há cerca de sete milhões, mas o aumento cerebral desviante do restante dos primatas se iniciou há 2 milhões de anos, coincidindo com o aumento das variações climáticas do pleistoceno, que podiam fazer com que uma região glacial torna-se quente num período de um ou dois séculos, como mostrado no gráfico a seguir, que engloba apenas os últimos 80 mil anos.

Variação do clima no Pleistoceno
Quantitade relativa do isótopo 18 do oxigênio encontado no gelo da Groelândia em função do tempo. Esta quantidade é diretamente proporcional à quantidade de chuvas e à temperatura da região. O dados do gráfico foram suavizados por um filtro de 150 anos. Adaptado de Ditlevsen et al. 1996.

Podemos imaginar dois limites para a frequência destas variações. Num extremo, as variações climáticas são tão lentas, que os organismos podem se adaptar a elas por meio de processos de seleção natural. Noutro extremo, tais variações ocorrem tão rapidamente que passa a ser vantajoso ter indivíduos isoladamente inventando estratégias de sobrevivência. Se as variações são rápidas, mas não tanto, um misto entre invenção de estratégias e imitação das estratégias de outros indivíduos, criando um processo de acumulação de variantes culturais ao longo de muitas gerações, passa a ser uma boa opção, o que é a base para o fenômeno da cultura e transmissão cultural.

Claro que, fossem só as variações ambientais responsáveis pelo surgimento da cultura, não teríamos apenas um par de espécies evoluindo nesta direção. Isto significa que os primatas que vieram a dar origem aos humanos possuíam as características certas, no momento certo. Provavelmente eram seres sociais, com cérebros desenvolvidos e já com algum grau primitivo de invenção, comunicação e de transmissão cultural. 

Estamos tão acostumados a vermos a nós mesmos como uma espécie cultural decidindo seu destino para além do despostismo dos genes, que perdemos a perspectiva de que o que nossa espécie é hoje decorreu de uma série de coincidências em nossa história evolutiva. Fosse esta história um pouco diferente, os humanos seriam meros primatas coletores, basicamente agindo por instinto e provavelmente divididos em diversas subespécies isoladas em várias partes do planeta.

Mesmo supondo que os humanos viessem a se tornar seres culturais, nada obrigava que se tornassem sendentários, abandonando a vida de caçadores coletores. Fosse a geografia de nosso planeta diferente [3], com vários pequenos continentes isolados como a Oceania, no lugar de grandes placas continentais como as Américas, a África e a Eurásia, ou não houvesse o clima se estabilizado nos últimos 10 mil anos, possivelmente a estratégia caçador-coletor teria predominado, como aconteceu com os aborígenes australianos, e nunca teria havido a emergência da agricultura, de cidades e de gente cuja ocupação seria olhar o céu.

Com certeza o universo é muito grande para garantir que a vida inteligente, ou seja, a vida fortemente dirigida por invenção de estratégias de sobrevivência, sua transmissão e acumulação ao longo de muitas gerações, deve ter acontecido (e ainda vai acontecer) em muitos outros planetas. A advertência pessimista para todos aqueles que têm o screensaver do projeto SETI (setiathome.ssl.berkeley.edu) é que ela deve ser um fenômeno muito mais raro do que a gente aprende nos seriados de ficção.    

(texto de Mario Barbatti)


[1] P. J. Richerson and R. Boyd, Not by genes alone, University of Chicago Press (2005). Vários artigos destes autores podem ser baixados em www.sscnet.ucla.edu/anthro/faculty/boyd/Publications.htm 
[2] P. D. Ditlevsen, H. Svensmark and S. Johnsen, Nature 379, 810 (1996). Disponível em www.gfy.ku.dk/~pditlev/publications.html#Geophysics  
[3] J. Diamond, Guns, Germs, and Steel, Norton (1997).

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